Mostrando postagens com marcador texto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador texto. Mostrar todas as postagens

sábado, 21 de junho de 2014

Desestresses

Aí o dia começa aperreado, cheio de coisa pra fazer, pra responder, sem respeitar os instantes de solidão que a manhã por vezes exige.
Ao alcançar a solidão e o cidadão coloca uma música, daquelas que entra pelo ouvido e faz cócegas no cérebro. Você ri e passa a achar o dia mais bonito.

Não há melhor psicotrópico do que a música

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Angústia

Minha maior angústia nessa vida é querer ser tanta coisa dentro de um corpo só.
Eu não caibo em mim

sábado, 24 de maio de 2014

Altruismo

Altruísmo, assim como humildade, é uma característica cuja sua auto afirmação é sua própria negação

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Elvis e Madona

Assisti este filme hoje, da história de amor entre uma lésbica e um travesti.
É algo como uma comédia romântica com personagens pouco ortodoxos. História simples, passagens engraçadas, com algum drama e um desfecho bonito no final.
O que eu queria deixar registrado é que eu tive a impressão de que a maior parte do pessoal que estava presente no cinema esperava uma história pesada, com preconceito latente, brigas e se surpreendeu com uma história engraçada e dinâmica. Talvez até um pouco de preconceito mesmo, como se a história só tivesse que seguir este caminho.
Mas o humor e a leveza surpreenderam

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Outro dia eu escrevi sobre a banalização do aplauso , que em aglomerações, o povo bate palmas por qualquer coisa, desde que seja induzido a isto.

Lembrei quando a introdução deste vídeo, antes de chamar o convidado. O baterista Miltinho chama Jô para fazer uma correção. Jô, pego desprevenido, tenta se sair com piadas sem graça e o povo ri. Já no final. Miltinho fala umas palavrinhas em Latim (Vox populi, vox Dei) , só pra fechar a frase que tinha dito.

O povo não entendeu, soltou um Ohhhhhhhhh e ainda aplaudiu.

Isso deixa clara uma coisa.Primeira coisa, conquiste sua plateia, seu ouvinte, o resto fica mais fácil. Com uma plateia "ganha". Jô eve todos os recursos pra sair estrategicamente pela esquerda



segunda-feira, 13 de junho de 2011

Alforria

Não sou muito chegado em postagens desta natureza, mas havia comentado com algumas pessoas que ia colocar um sumário do que foram estes últimos três meses pra mim.

Pra quem não sabe, eu sou doutorando (não médico, de quem faz doutorado). Os doutorados em geral têm uma etapa chamada "exame de qualificação", em que é avaliada sua condição de continuar no doutorado ou não. Para alguns doutorados, é uma mera formalidade. Um artigo enviado, uma pré-banca da tese, onde vai ser avaliado o andamento de sua tese.

No meu caso não, o doutorado é uma prova, ou "a" prova.

São 5 grandes temas escolhidos para a prova, cada tema desse é genérico o suficiente para conter uma disciplina inteira, mas a amplitude da prova permite cair qualquer coisa que envolva o tema. Destes 5 , um é sorteado numa sexta-feira para ser realizada a prova na segunda. 80% do que você estudou não vale nada no grande dia.
Em favor do doutorando, são 5 temas relativos às disciplinas obrigatórias no doutorado. Não há nada exatamente "novo", mas há disciplinas que foram pagas há bastante tempo, outras mudaram de professor e de abordagem dão uma embaralhada nas cartas.

O fato é que o assunto é imenso e essa postagem comenta algumas coisas que aconteceram neste nestes dois meses.
Afastei-me de alguns dos meus meios, notadamente aqui do blog. Não conseguia parar para escrever. Sempre que eu parava as atividades formais, tentava dispersar meu pensamento e escrever no blog sempre foi um exercício de concentração. O cérebro cansado não cooperava muito.

Isso não significa que eu não tinha o que escrever, muito pelo contrário. As impressões estão sempre aí. O fato de ter o que escrever mas não conseguir expressar me angustiava, como se eu tivesse querendo gritar sem um pingo de voz. Aliás, todas as minhas leituras não-acadêmicas ficaram encostadas. Lendo o dia todo, o dia todo, minha leitura universal pré sono rendia umas 5 ou 6 folhas.

Essa condição me deixou na situação curiosa. Apesar de estar estudando muito, de estar pondo muita coisa na cabeça, me sentia cada vez mais burro e limitado. Os conhecimentos de faculdade desta natureza engrandecem, mas dentro de um espectro limitado do que eu já tinha visto e do viés da minha área. Não li, não viajei (quem me conhece sabe da importância disso pra mim), não ouvi músicas novas. Via meu lado subjetivo escorrendo pro limbo. Estive perdendo um pouco a capacidade de transgredir, de reflexões mais profundas, de conseguir ler uma poesia, ter espírito para as coisas leves, gostos apurados. Embrutecia. Como pessoa, isso é muito mais valioso do que saber as condições de uso da função de Durbin-Watson ou as conceituações envolvendo cadeias de Markov.

Eu ganhei um vício mental, um forte argumento pra procrastinação. Frequentemente quando surgia algum problema, vinha na minha mente. "Depois da qualificação eu vejo". Eu não conseguia parar para resolver determinadas coisas, sentia como tempo perdido. Para piorar, eu estava atrasado comparado a todos os meus amigos de curso, isso aumentava a pressão. O ar condicionado do carro quebrou, o pneu parece que está com um prego, o meu violão desmontou, meu tênis tá apertando, o celular novo veio todo desconfigurado, músicas para tocar com os amigos, a cadeira tá desregulada,voltar a fazer cooper e a jogar poker , ajeitar o perfil do facebook, o passaporte, o computador precisando formatar, umas visitas que estou devendo, o quarto uma bagunça... Tudo isso só depois da qualificação.

Aliás, meu quarto está um caso a parte, meu birô tem tanto livro que não tá tendo nem espaço pra escrever, papel pra tudo que é lado. Tá parecendo o quarto do paulo Bruscky


tá vai, meu quarto vai continuar uma bagunça depois da qualificação

A proximidade e o volume de coisas pra estudar me fizeram tomar algumas atitudes mirabolantes em prol do meu estudo. Vi a final do campeonato estudando (tá, só no segundo tempo quando o boi já havia deitado), estudei várias madrugadas de sexta e de sábado. Carreguei resumos para ler enquanto dirigia. Em maio todo e nos 12 primeiros dias de junho, contem 2 dias que eu consegui dormir 8 horas. Saia às vezes à noite e quando voltava estudava. Estudei na fila dos correios. Estudei na emergência duas vezes quando minha mãe sofreu um acidente, abria lá o livro e lia enquanto esperava a vez dela na fila. Não vou me esquecer tão cedo da mulher que tava do meu lado "Cansei de olhar pra lá, vou ficar olhando aqui as matemática do menino" seguido de um monte de pergunta que ela não queria saber a resposta, mas julgava ser fundamental para socializar comigo.

Uma das razões para eu ter que me sujeitar ao ritmo intenso é que, concomitante a estas coisas todas, a vida acadêmica não parou. Dei aulas no estágio-docência, escrevi e traduzi dois artigos, analisei 6 projetos de pesquisa e preenchi a lista de requisitos, além de fazer a arguição sobre minhas impressões. Também tinha que ir três vezes por semana ao laboratório e estudar pra uma disciplina de "tópicos avançados" que tinha 6 alunos e 7 professores na sala para analisar um artigo avançado da área. Os alunos revesavam na apresentação do artigo, cada semana um e quem não fosse apresentar tinha que ler, estudar e opinar do mesmo jeito.
Além disso tudo, um pesquisador internacional veio ao departamento e fez algumas sessões extras com alguns professores, que contaram com alguns alunos para apresentar temas para discussão pra ele. E quem foi convocado para apresentar "alguma coisa para discutir" toda em inglês para o pesquisador e depois apresentar espremendo o inglês?

Não sendo suficiente, ainda tratava de acalmar uns amigos mais nervosos. Via telefone, e-mail, msn, tentava ajudar como fosse . Às vezes, estava estudando algo completamente diferente e parava pra tentar dar uma força a outra pessoa que estivesse com problemas. Isso acabou gerando situações inusitadas. Dois dias antes de sortear um ponto, 23:45, liga um amigo pra mim com uma voz meio pesada:

- Olha, viste a fórmula tal, mas com três variáveis? ela é assim..."
e começou a dizer uma fórmula completamente maluca, que não tinha fim. Respondi
- Isso existe?
- Existe pô. O professor deu em sala de aula e eu tenho certeza que vai cair.
- Certeza?
- É pô, ele falou, vê aí se tu encontra...

Desliguei o telefone e fui procurar a tal fórmula de três variáveis na madrugada. De fato, não existia. Depois eu descobri que ele tinha tomado remédio pra dormir e já tava meio "drogado" nesta hora

Pra dificultar, descobri dois dias antes do sorteio que um dos temas tinha umas 150 páginas que eu não tinha estudado. Preferi não entrar na pilha de ter que estudar em cima da hora (estudar e revisar tem duas conotações bem diferentes nestas horas). Claro, pela lei de Murphy, este tema tinha 99% de chance de ser sorteado e assim foi.
Estudei o sábado inteiro, estudei o domingo inteiro até 1:30 da manhã.

A prova foi agora pela manhã e acho que foi razoável, hoje foi minha alforria!

Foram tempos muito movimentados, estou exausto, mais gordo, mais branco e com mais olheiras, tava num processo de ursopandização. Apesar de tudo que me custou, fico feliz e ter chegado até aqui, de ter avançado significativamente, de ter construído coisas como a a confiança da minha orientadora no caso do pesquisador estrangeiro. Pude ver como me comporto em situações como essa de grandes objetivos e muito esforço pessoal, numa época que premia a malandragem.

Mas a guerra ainda não acabou, descansar um pouco e voltar pra batalha.

sexta-feira, 11 de março de 2011

O carnaval não é só isso

Todos vocês já devem ter visto o comentário da jornalista Rachel Sheherazade atacando o carnaval. A transcrição do texto está aqui

Já foi falado, já repercutiu bastante, mas eu não vi nenhuma reposta que colocasse determinados limites no comentário. Vejo uma louvação tremenda. Vou registrar aqui alguns contrapontos que os olhos parciais não consideram.

1. O carnaval pode não ter origem brasileira, mas o carnaval brasileiro é sim genuíno. Se a gente regride as coisas, o que foi inspirado no que, vamos voltar muito além. Além do mais, quem se importa da origem?

2. Sei que no Rio de Janeiro tem blocos de rua enormes. No Recife é cheio de atrações gratuitas. O galo da Madrugada, que arrasta 1,7 milhões de pessoas, deve ter no máximo uns 5% de pessoas de camarotes. Neste panorama, é uma festa popular sim. Foi uma generalização infeliz do carnaval.
E vamos parar com esse negócio de que é feio ganhar dinheiro.

3. Concordo que há músicas ruins, mas em Recife/Olinda temos frevos-canção lindos. Por sinal, o frevo tradicional se apresenta na Europa em festivais de Jazz. O samba tradicional do rio não pode ser considerado uma música pobre também. Mais uma generalização que incomoda

4. Hoje em dia, o que se faz em favor do povo é rotulado de política de pão-e-circo. Apontar de maneira hipócrita "onde estão os policiais" e "onde estão as ambulâncias" na diversão da massa que não pode se defender é fácil, até porque não mexe com os prazeres pessoais dela.
Os prazeres da vida são racionais e "inutensílicos", como diria Leminski. Se formos racionalizar tudo, não vamos por o pé fora de casa.

5. Esta parte da crítica quanto ao giro de dinheiro no carnaval é muito pobre, convenhamos. A própria João Pessoa tem um fluxo de turistas muito forte. Os informais faturam SIM no carnaval, tanto que lotam as ruas vendendo seus itens. Isso não resolve o problema social deles e etc, mas os ajudam.

6. Culpar o carnaval por acidentes de embriagados e por gravidez indesejada é colocar o carro na frente dos bois. Se alguém bebe e dirige em festa, faz isso sendo carnaval ou não. O mesmo quem se descuida dos métodos contraceptivos.

7. O carnaval foi bom nos tempos de outrora? É bom dar uma lida aqui antes de bater o pé nesta opinião. Outrora também tinha seus problemas, mas são mais fáceis de esquecer.

---

Até concordo que o comentário dela possa exibir algumas realidades e induzir reflexões importantes, mas discordo totalmente da forma ampla e generalista que foi feito. Olhe que eu nem sou chegado em carnaval. Sempre que posso eu viajo pra outros cantos, mas acho importante marcar opinião

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

História

Ah, a história!
Todos nós estudamos nos primórdios da educação como a história é bonita. Nas séries mais avançadas, aprendemos como tudo isso era mentira. Descobrimos que a história do mundo foi feita em cima de muito ódio, ambição, mercantilismo e mais um monte de interesses pouco nobres.
Ao lermos alguns textos que relatam coisas do passado, ficamos vulneráveis a parcialidade do autor. Às vezes, não temos elementos fundamentais para compreender o contexto de determinadas ações, como o sentido de cada ação, o cenário, os pontos de vista, as contradições, entre outros. Facinho me vem em mente uns 4 exemplos de histórias tendenciosas por falta de informação.
Anarquista que sou, me divirto quando a metodologia fria dos que se propõem a contar escondem alguma razões interessantes por baixo do pano, dando uma outra dimensão para a questão.

Estes dias eu li uma pseudobiografia de Janis Joplin. Ela marcou época no fim da decada de 60 com uma voz surpreendente (dita voz de cantora negra em uma branca) e uma postura atípica para os padrões da época. Janis bebia e se drogava bastante, se proclamava Hippie e se vestia como tal. Achei curiosa a descrição da própria sobre uma passagem da vida dela, que mudou o contexto do que eu sabia até então

Evento: Janis havia voltado pra sua cidade Natal, Port Arthur, para tentar se livrar das drogas. Um ano depois ela voltou para São Francisco

Wikipedia

Depois de retornar a Port Arthur para se recuperar, ela voltou para San Francisco em 1966, onde suas influências do blues a aproximaram do grupo Big Brother & The Holding Company, que estava ganhando algum destaque entre a nascente comunidade hippie em Haight-Ashbury

Janis, descrevendo a situação
A maneira que eu entrei no grupo foi engraçada, porque eu não transava há um ano, cara, com quem eu iria transar em Port Arthur? (...) Estava me esforçando na faculdade, como minha mãe queria e chegou um rapaz, velho amigo meu... um gato que eu costumava transar(...) Estava na casa de outras pessoas, e estava sentada lá quando esse gato veio e tomou conta de mim, ele simplesmente se apossou de mim, me atirou numa cama, uau, baby! Ele trepou comigo a noite inteira até esgotar minha energia. No outro dia me entreguei
- Oi
- E aí? Vá pegar suas roupas, acho que vamos para a Califórnia.
Percebi que tinha entrado nesse negócio de rock por um cara que trepava tão bem. Depois que cheguei e comecei a cantar, gostei de verdade. (...)
Soube depois que o empresário da banda mandou aquele gato ir em Port Arthur para me convencer a entrar na banda, ele sabia como eu cantava


Indispensável registrar o fator humano e lembrar que o povo no passado tinha suas razões humanas para tomar as decisões

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Postagem azul



Na minha vasta ignorância literária, ainda estou criando minhas referências. Uma delas, já solidificada, é com um poeta local Carlos Pena Filho. Por sinal, nem é a primeira vez que eu falo dele por aqui, está no circuito dos poetas e em um episódio dos versos de quarta.
Era de palavras delicadas, gostosas, com sacadas muito bacanas, como o poema que ele fez para Olinda, representado mais lá embaixo.
Este ano é o cinquentenário da morte prematura deste poeta e para lembrar sua passagem o Centro Cultural Santander fez uma exposição sobre ele.

Pude conferir e está muito boa. Não lembro de uma mostra bem cuidada assim para um poeta local sem muita força nacional. A exposição é dividida em 3 partes. No térreo há uma overdose de poemas dele e dois setores caracterizados. Um representando o bar Savoy (bar mítico que reunia os intelectuais no século passado), passando para um ambiente completamente azul (reflexo do desmantelo azul, um dos sonetos mais famosos dele), inclusive tendo um audio do próprio Pena Filho recitando o poema. No primeiro andar, um curta sobre o autor e no segundo algumas fotografias, vídeos e outras exposições artísticas que se vinculavam a poemas dele. No estilo do meu álbum do meu quintanando .
Sendo bem feito, de um poeta que eu realmente gosto, foram momentos valiosos que eu passei por lá. Ainda devo voltar para rever tudo de novo, mais azulado :D

Alguns poemas embaixo sobre coisas que citei aí em cima

(1) Trecho: Chopp (Copiei daqui)
Na avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antonio,
tanto se foi transformando
que, agora, às cinco da tarde,
mais se assemelha a um festim,
nas mesas do Bar Savoy,
o refrão tem sido assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.

(2) Trecho: Olinda (tirei daqui)
Olinda é só para os olhos,
Não se apalpa, é só desejo.
Ninguém diz: é lá que eu moro
Diz somente: é lá que eu vejo.

(3) Desmantelo azul (tirei daqui)
Então pintei de azul os meus sapatos
Por não poder de azul pintar as ruas
Depois vesti meus gestos insensatos
E colori as minhas mãos e as tuas

Para extinguir de nós o azul ausente
E aprisionar o azul nas coisas gratas
Enfim, nós derramamos simplesmente
Azul sobre os vestidos e as gravatas

E afogados em nós nem nos lembramos
Que no excesso que havia em nosso espaço
Pudesse haver de azul também cansaço

E perdidos no azul nos contemplamos
E vimos que entre nascia um sul
Vertiginosamente azul: azul.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Humanscapes

Sempre achei que o sentido que davam aquele clichê "definir-se é limitar-se" pobre e preguiçoso. Creio que ninguém consegue ser definido em poucas palavras, mas é possível traçar alguns princípios mais "profundos" que nos norteiam. Princípios que podem ser ampliados, reduzidos ou modificados no curso da vida. Além disso, o ilimitado não existe. Como diria Wittgenstein, os meus limites são os da minha linguagem. Reconhecer a própria limitação é um ponto importante para buscar, caso queira, coisa além dos seus próprios limites.

A questão então se torna no posicionamento dos limites, na sua amplitude. Apelando para eufemismos, vou classificar dois exemplos abaixo: os definidos e os "pouco definidos"

Vamos considerar uma perspectiva externa de alguém "definido". Uma pessoa comum, de reações frequentemente previsíveis, com qualidades e defeitos marcantes que se faz questão de manter por questão de "coerência". Uma pessoa "bonita e do bem". Uma representação nas artes plásticas poderia ser uma pintura de traços clássicos.


A beleza deste quadro é evidente e de esforço baixo para a compreensão. Você consegue ver ver com precisão os contornos do corpo. Traços bem definidos. Há alguns pequenos defeitos escondidos aí, defeitos que dependem do olhar de quem vê e da qualidade do pintor.

E os menos definidos? Alguém que você enxergue como um esboço, já que as ações não seguem necessariamente um padrão (ou ao menos parcialmente). Poderia ser algo assim


Isso é a Marilyn? Não sei, mas parece. Pode ser aquela cena clássica dela tentando segurar a saia sobre a saída de vento. A expressão facial é quase invisível. Uns traços pretos são o esboço das mãos e o que parece ser as pernas é uma composição preta e amarela. Não se sabe direito o que é cabeça, pescoço, vestido, braço e paisagem, são só impressões e comparações com uma referências que temos em mente.

Temos algumas referências para enxergar este último quadro, mas não certezas. O que fica dele não é são os contornos óbvios evidentes a nossa face, mas as impressões que ele passa dentro desta perspectiva. Esta é uma qualidade (?!) das pessoas pouco-definidas. Estes borrões de incerteza dão uma margem muito bacana para poder navegar, encontrar surpresas e outras perspectivas. Os idiotas da objetividade vão ver apenas um borrão, afinal, é melhor depreciar o que exige mais esforço.

Juro que eu prefiro esse "borrão" do quadro de baixo.

* Este quadro embaixo que motivou esta discussão está em exposição no centro cultural dos correios. Mas se não quiser ir lá ver, pode ver este e outros quadros aqui no site do pintor

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Influencias artísticas

Aqueles que gostam de literatura, música, ou algum outro tipo de arte já devem ter passado por esta situação:
Após uma exposição sua à arte, sai à rua e começa a ver a vida com as formas e contornos do que foi assimilado. Pode ser Nietzsche, observando os humanos, demasiado humanos, ou a solidão de cortar o estômago de Iberê Camargo no rosto de um mendigo que tenta dormir, ou os sons omissos do dia-a-dia após assistir uma performance de John Cage, qualquer coisa assim.

Os temas não-artisticos também possuem um sentimento semelhante. Por exemplo, estudar economia pode fazer você ver conceitos microeconômicos no vendedor de espetinhos. Porém, a arte tem uma ligação mais direta e mais profunda com o sentimento, ou o "eu interior" , o que diferencia no resultado final da influência.

Bem, uma de minhas leituras atual é "A vida como ela é", do Nelson Rodrigues. Aquela mesma que virou série do fantástico há uns 10, 15 anos. Os textos dele põe o dedo em várias feridas nas relações sociais, principalmente a conjugal. São textos com a cara do cotidiano, recheado erotismo e desfechos fortes e surpreendentes. Como diria o próprio Nelson Rodrigues: - Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém.

Com este espírito y otra cositas más, dei uma saída hoje e tudo me soou um pouco diferente.

* Em uma mesa, havia um casal perfeito. Ele, um rapaz muito bonito, que chama atenção das garotas. Usava roupas de grife e tinha cara de bom moço. A moça seguia uma linha semelhante, vestida de maneira elegante e discreta, postura, parecia o estereótipo da "menina-de-família". Um casal que tem tudo pra "dar certo" e constituir família.
Porém, era um casal que transparecia o tédio. Ambos permaneciam longos instantes sem pronunciar uma palavra, sem um olhar mensageiro, sem um gesto carinhoso, sem nenhuma provocação, nada. Doía assistir aquilo. Por alguns instantes, eles pareciam realmente solitários com uma companhia "perfeita" do lado. O que se passava?

* Outra mesa trazia uma garota na faixa dos seus 18 anos, linda. Branca, alta e encorpada. Tinha os cabelos negros bem escuros e usava um vestido tomara-que-caia que a valorizava. Além disso, sua mesa era central, o que trazia ainda mais os holofotes pra si.
Um rapaz da mesma faixa de idade a acompanhava. Estava todo de preto com detalhes prateados na altura do cinto e um cabelo que passa aquele rótulo de Emo. Era alto e magro, mas não era feio nem bonito.
O que se viu no lugar foi a garota dando em cima do rapaz sutilmente enquanto ele desviava o rosto, inclinava o corpo pra trás e evitava a garota. Observei que os marmanjos ao redor invejaram a situação do emo na mesma proporção que se indignavam com a falta de ação. O burbrinho era geral. A senhorinha resolveu intensificar as ações e dar em cima dele descaradamente, puxando-o pra si, aproximando o rosto a centímetros.Ele mantinha a "defesa". Pelo gestual do rapaz, ele parecia que estava com algum receio, algum medo. Pois às vezes ele até tentava se aproximar, mas recuava e balançava a cabeça negativamente. Olhava perdido pra baixo.

Talvez eu enxergasse estas cenas mesmo sem Rodrigues. Contudo, ele me transportava nestes instantes. Eu conjecturava como eles se conheceram, a intensidade dos sentimentos, o desenrolar (com doses de erotismo ou a sua falta) e qual seria o desfecho disso tudo (um desfecho Rodrigueano, claro).

A literatura hoje me ajudou a tornar uma saída comum, numa sexta comum, para um lugar comum tivesse um status de única. De histórias que eu vou pensar como poderia ter sido se passasse antes pela cabeça do anjo pornográfico.

Ps: Citar Rodrigues aqui nem é novidade, ele é figura recorrente com suas frases :D

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Relações amorosos ideais

- Tinha aquelas coisas de casal, de tá no meio da briga, a mãe dizer uma frase e ele dizer "fofa, isso é bom". [se vira de lado e gesticula como quem digita numa máquina de escrever] Tá, tá, tá, tá, e desenvolvia um poema inteiro

Este depoimento é de Estrela Leminski, filha de Alice Ruiz com Paulo Leminski, poeta já citado um quintilhão de vezes aqui.

Eu não acredito em relacionamentos perfeitos. Porém, creio que haja "graus de aproximação" deste modelo ideal, que auxilia não só a manter a relação sustentável como trazer coisas boas para ambas as partes.

Claro, este caso é quase que uma fantasia, uma metáfora, de tão excêntrico que é. Mas, dá pra servir como uma referência de que é possível desenvolver de modo saudável e engrandecedor uma relação entre pessoas além dos preceitos românticos mais básicos e escravizantes. De um entendimento próprio até nos momentos de desentendimento, leveza de espírito, se divertir com a postura do outro. Sem deixar que o desgaste natural da convivência consuma muito rápido o sentimento que uniu as pessoas.

Minha opinião talvez não seja a mais neutra para este tipo de coisa. Afinal, estou solteiro há anos e isso pode soar como uma justificativa do meu status. Pode até ser, exigência, chatice, sei lá. Mas não vejo razão para largar os tantos de liberdade que conquistei se não for para obter uma troca convincente, se não for para querer escrever poesia no meio de uma briga.

A arte de viver
É simplesmente a arte de conviver
Simplesmente, disse eu?
mas como é difícil!


segunda-feira, 28 de junho de 2010

A Razão é suficiente?

Imagine que haja uma decisão complexa a se tomar e faz-se um opção racional sobre uma alternativa.
Tomou-se tomada a melhor decisão. Pelos critérios de racionalidade até então, não havia outra alternativa melhor.

Mas vejamos...
Será que havia tempo e informações necessárias pra tomar a decisão?
Será que o tomador de decisão tinha capacidade intelectual (eufemismo!?) e de percepção suficientes para avaliar e sentir as nuances?
E quanto aos viéses de pensamento, será que foi possível desligar deles?

Talvez, com alguma destas dimensões enriquecidas, fosse possível tomar uma decisão melhor dentro do nosso conjunto de valores ou otimizando os resultados. Por isso dá pra chegar a uma conclusão curiosa. Destoando um tanto da ótica iluminista e talvez do senso comum, a racionalidade em uma tomada de decisão é restritiva e sua utilização exige cuidado, já que é pior demover uma "boa ideia racionalmente adotada". As opções e critérios tomados são subgrupo de um espaço de opções que a racionalidade do indivíduo impõe.

A partir do momento que se confronta com novas ideias, perspectivas, informações, diminui o abismo que é a nossa restrição de racionalidade.

Estou lendo um livro pra faculdade que mapeia o processo decisório cognitivo sob um monte de perspectiva. Acho que volto a escrever sobre depois

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Imprensando

Não acredito em imparcialidade. Já tive uma discussão com um professor sobre isso um vez. Para quem busca ser imparcial, já vale a tentativa de colocar as coisas no mesmo patamar.

Agora juntando a imparcialidade inatingível a um grupo de notícias que tenha interesses econômicos, este desvio fica ainda mais torto. Há jornais do Recife que frequentemente fazem matérias especiais (pagas) sobre temas específicos, chegam até mesmo exibir capas de jornais pra lá de duvidosas. Há tantos exemplos que eu poderia citar aqui de outros órgãos da grande imprensa, mas deixo pra outra hora.

Este caráter capitalista nos órgãos, além de canalizado para ajudar/atingir algum alvo, também está preparado para explorar algum lado sensível do ser humano, assim fica mais fácil de se propagar.
Talvez seja uma escala assim.
Desgraças de grande porte > Morte > desgraças de pequeno porte> Casos de corrupção > ...

Em último lugar da escala estão as boas notícias.

Esta introdução toda foi pra comentar sobre isso. Vi num blog de ciência e meio ambiente a notícia

A média do ano passado se igualou a uma das menores medições feitas. Há registros de aumento da camada de gelo e dois lagos de água doce congelaram. Também, segundo a notícia, foi registrado a temperatura mais fria dos últimos 20 anos pelo menos.
Enfim, é uma notícia excelente pro meio ambiente.
Eu assino 3 grandes portais, assisto normalmente 2 grandes noticiário e tenho 2 jornais diariamente em casa. Se um destes noticiou isso, foi absolutamente discreto.
Afinal, boas notícias estão no fim da escala

Bendito sejam os blogs e outros espaços de mídia independente :D

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O exército de um homem só

- Estuda, filho, estuda. Lembra-te que Rabi Iochanan ben Zacai dizia "Foste criado para estudar a Torá"
Tonto de Sono, Mayer respondia:
- Mas Simeon, Filho de Rabi Gamaliel, dizia: "Passei a vida entre sábios e nada achei de melhor do que o silêncio. O essencial não é estudar, é fazer"
- Simeon? era inexperiente. Rabi Gamaliel, seu pai, sabia o que estava dizendo quando disse "Procure um mestre". Eu sou o teu mestre, meu filho.
- Na Guemara - contestava o perverso Mayer - está escrito "se o discípulo percebe que o mestre está errado, deve corrigi-lo"
A testa do pai vincava-se:
- Em que estou errado, meu filho?
- Em me obrigar a estudar estas bobagens quando estou louco de sono.
- Na Guemara está escrito "Se um grande homem disser uma coisa que te pareça um absurdo não rias, tente entendê-lo (...). Está escrito na Torá, a maior riqueza é o estudo, a religião.
- Não - gritava Marx - A maior riqueza é a posse dos meios de produção, estás ouvindo? É bem como diz Marx: a religião é o ópio do povo.
- Quem é este Marx? - perguntava o pai espantado - e o que ele sabe da felicidade dos homens?
- Sabe tudo! Sabe que não deve haver fome, nem injustiça. Não deve haver "meu" nem "teu"; deve ser "o que é meu é teu; o que é teu é meu".
O pai abanava tristemente a cabeça.
- Na Mishná está escrito que há 4 tipos de homens: O vulgar diz: "O que é meu é meu; o que é teu é teu"; O perverso diz "O que é meu é meu; o que é teu é meu"; O homem santo diz "O que é meu é teu, o que é teu é teu"; Mas tu, meu filho, dizes "o que é meu é teu, oque é teu é meu". E isto, segundo a Mishná, são as palavras do excêntrico, do estranho entre os homens. Acho que vais sofrer muito, meu filho .


O pai estava certo. Esta discussão do filho insolente, Mayer Guinzburg, ou Capitão Birobidjan, com o seu pai, que mistura política, religião e chega em desfecho curioso está no livro Exército de um homem só, do Moacir Sclilar. O livro que tem um quê de dom quixote, outro de revolução dos bichos e mais umas pitadas do manifesto do partido comunista pela perspectiva de um judeu.
É um nó tremendo, mas vale a pena. E como diria o Capitão Birobidjan, durante as várias vezes que tentou concretizar o seu sonho

- Iniciaremos neste momento a construção de uma nova sociedade

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Não me larga

A hora da minha corrida é o momento mais sinsetésico do meu dia. Tento captar e organizar sensações e impressões que me acontecem.

Hoje foi um dia estranho neste sentido.

Enquanto ia, vi uma camisa de uma pessoa onde estava. "Carnaval 2009 é na capela". Tomada tal e qual escrita soa estranho, dispenso o carnaval na capela, ainda que saiba que a capela referida é .. Bum!
Uma picape ameaça furar o sinal na minha frente e freia, um Mille vem atrás e acerta a picape em cheio. O susto quebra a sinestesia do momento

Chego na pista de corrida e me entretenho com os gatinhos. A fêmea estava no cio cruzando com um parceiro na beirada da pista e diversos gatos estavam rodeando a cena em volta. Todos que se exercitavam na pista tinham que desviar pelo cantinho que os gatos deixaram para a passagem, já que eles não estavam nem aí para os humanos. Distante, vinha um cachorro encoleirado, daqueles que parecem ser meio atacados, pois ficava o tempo todo com a correia da coleira esticada. Comecei a divagar sobre a naturalidade dos animais que a sociedade nos poda, sobre a passagem do cachorro pelos.. (bum!)
Um Renaut Megane cruza a pista de maneira descuidada e se atravessa na frente de uma moto. A moto trava as rodas e em deslizando em velocidade na direção do Renaut. Aqueles segundos demoraram horas pra passar, a aflição de ver um acidente acontecendo, até que houve o choque.

Por estas e outras que vivo zombando de tudo. A realidade já é muito dura pra levar a vida a sério o tempo todo.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Coragem pra dentro

Todos me abandonaram, e lá estava eu em minha cadeira, esmagado e humilhado.
"Meu Deus, Então esta é a minha sociedade" - pensava - E que papel de idiota fiz diante deles" Os imbecis imaginavam que me fizeram uma grande honra dando-me um lugar à sua mesa, e não percebem que sou eu, sim, eu quem os honra, e não eles a mim . 'Emagreci!' "A roupa!' Ah, malditas calças! Zverkov notou imediatamente a mancha amarela no joelho. Mas que adianta! Tenho é que me levantar logo desta mesa, apanhar o chapéu e simplesmente ir-me embora, sem uma palavra... Com desprezo! E amanhã desafio-os para um duelo. Covardes! Não lamento meus sete rublos. Eles imaginarão talvez... O diabo que os carregue! Não me importam meus sete rublos! Vou-me embora imediatamente"

Evidentemente, fiquei. Para me consolar, bebi copázios de Lafitte e xerez, embriagando-me rapidamente.

...

Estes e outros exemplos de como nosso mundo interior é tão diferente do exterior,  e até um questionamento interessante sobre "quem é o herói" pode ser visto nas Notas do Subterrâneo, de Fiodor Dostoievski. 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

Mario quintana

Indicado por Srta Polly