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sábado, 31 de maio de 2014

Angústia 2

Aí um dia depois de eu colocar a postagem anterior e de Polly mostrar a opinião de Guimarães Rosa nos comentários, hoje aparece na minha timeline do facebook meu querido amigo Mário Quintana opinando também:

Moro em mim mesmo
Não faz mal que o quarto seja pequeno
É bom, assim tenho menos lugares
para perder minhas coisas


quinta-feira, 15 de maio de 2014

O sonho é popular

Tenho vontade de conhecer Brasília. De lá, escuto o mantra da objetividade turística "Brasília não tem nada pra fazer".
Mas será que as coisas belas precisam ser apenas aqueles quadros belíssimos ou coisas que a natureza passa anos esculpindo?
Será que a arte pode ser funcional e bela ao mesmo tempo, rasgando os céus
Como diz Ferreira Gullar, o sonho é popular



Lições de arquitetura

No ombro do planeta
(em Caracas)
Oscar depositou
para sempre
uma ave uma flor

(ele não faz de pedra
nossas casas:
faz de asa)

No coração de Argel sofrida
fez aterrizar uma tarde
uma nave estelar
                           e linda
como ainda há de ser a vida

(com seu traço futuro
Oscar nos ensina
que o sonho é popular) 

Nos ensina a sonhar
mesmo se lidamos
com matéria dura:
o ferro o cimento a fome
da humana arquitetura 

nos ensina a viver
no que ele transfigura:
no açúcar da pedra
no sonho do ovo
na argila da aurora
na pluma da neve
na alvura do novo 

Oscar nos ensina
que a beleza é leve

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Versos de Quarta - Fernando Pessoa

Ainda no processo de reduzir a abrangência da minha ignorância eu parei pra ler um livro de antologia poética de Fernando Pessoa. Já havia lido anteriormente, mas de maneira quase aleatória.
Deu pra perceber melhor a visão geral dele, a diferença entre os pseudônimos adotados (não havia lido sobre o Ricardo Reis) e a coerência da forma da escrita com a formação de cada um.
Peguei um trecho de um poema que não é das consagradas pra ilustrar a postagem. É de Alberto Caeiro, o simples pastor de ovelhas e dá pra perceber um pouco desta simplicidade na estruturação do pensamento dele

Trecho de Opiário

(...) Eu acho que não vale a pena ter
Ido ao Oriente e visto a índia e a China.
A terra é semelhante e pequenina
E há só uma maneira de viver.
Por isso eu tomo ópio. É um remédio
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio "

quarta-feira, 30 de março de 2011

Versos de quarta - Solano Trindade

Solano Trindade é um poeta pernambucano que faz parte do circuito dos poetas. Negro, fez várias poesias sobre as injustiças sociais sobre as questões relacionadas. Também tem uma parcela de poesia com um interessante cunho social, entre outros.

Abaixo uma poesia muito bacana dele. Que tal uma grava colorida, Solano?

GRAVATA COLORIDA

Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada...

quarta-feira, 2 de março de 2011

Poesia de quarta - Emily Dickinson

Eu costumo dizer que a manhã, pra mim, representa vida. É quando as praias estão lotadas, as crianças correm por aí, as familias vão às ruas e se expõem, normalmente felizes como propaganda de margarina.

Vou deixar um pequeno verso sobre a manhã, escrito pela Emily Dickinson, poetiza americana que se manteve reservada durante a vida, só ficando famosa depois que partiu.

"Morning"—means "Milking"—to the Farmer—
Dawn—to the Teneriffe—
Dice—to the Maid—
Morning means just Risk—to the Lover—
Just revelation—to the Beloved—

Tradução de Ivo Bender

Manhã - significa ordenha - para o fazendeiro
Alvorecer - Para o Tenerife
Picar verdura - Para a cunhada
Manhã significa tão-só risco - para o amante
E apenas revelação - para a bem amada

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Versos de quarta - Cíntia Moraes

Nem vá buscar no google quem é. É uma amiga minha que também tem um blog, o asneiras aleatórias .
Bonitinho e rapidinho. Quem tem insônia, como eu, se identifica rapidinho

deito
levanto

deito
levanto

deito levanto

e

pra amanhecer

falta tanto

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Postagem azul



Na minha vasta ignorância literária, ainda estou criando minhas referências. Uma delas, já solidificada, é com um poeta local Carlos Pena Filho. Por sinal, nem é a primeira vez que eu falo dele por aqui, está no circuito dos poetas e em um episódio dos versos de quarta.
Era de palavras delicadas, gostosas, com sacadas muito bacanas, como o poema que ele fez para Olinda, representado mais lá embaixo.
Este ano é o cinquentenário da morte prematura deste poeta e para lembrar sua passagem o Centro Cultural Santander fez uma exposição sobre ele.

Pude conferir e está muito boa. Não lembro de uma mostra bem cuidada assim para um poeta local sem muita força nacional. A exposição é dividida em 3 partes. No térreo há uma overdose de poemas dele e dois setores caracterizados. Um representando o bar Savoy (bar mítico que reunia os intelectuais no século passado), passando para um ambiente completamente azul (reflexo do desmantelo azul, um dos sonetos mais famosos dele), inclusive tendo um audio do próprio Pena Filho recitando o poema. No primeiro andar, um curta sobre o autor e no segundo algumas fotografias, vídeos e outras exposições artísticas que se vinculavam a poemas dele. No estilo do meu álbum do meu quintanando .
Sendo bem feito, de um poeta que eu realmente gosto, foram momentos valiosos que eu passei por lá. Ainda devo voltar para rever tudo de novo, mais azulado :D

Alguns poemas embaixo sobre coisas que citei aí em cima

(1) Trecho: Chopp (Copiei daqui)
Na avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antonio,
tanto se foi transformando
que, agora, às cinco da tarde,
mais se assemelha a um festim,
nas mesas do Bar Savoy,
o refrão tem sido assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.

(2) Trecho: Olinda (tirei daqui)
Olinda é só para os olhos,
Não se apalpa, é só desejo.
Ninguém diz: é lá que eu moro
Diz somente: é lá que eu vejo.

(3) Desmantelo azul (tirei daqui)
Então pintei de azul os meus sapatos
Por não poder de azul pintar as ruas
Depois vesti meus gestos insensatos
E colori as minhas mãos e as tuas

Para extinguir de nós o azul ausente
E aprisionar o azul nas coisas gratas
Enfim, nós derramamos simplesmente
Azul sobre os vestidos e as gravatas

E afogados em nós nem nos lembramos
Que no excesso que havia em nosso espaço
Pudesse haver de azul também cansaço

E perdidos no azul nos contemplamos
E vimos que entre nascia um sul
Vertiginosamente azul: azul.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Versos de Quarta - Frei caneca

Estive na expoideias no domingo. Não sou muito chegado neste tipo de feira, mas resolvi dar uma espiada. Das poucas bancas que me prenderam, uma era a da Cepe, uma editora pernambucana. Havia uma coletânea de escritores pernambucanos. e vejo um poema muito legal
Segue um trecho:

Não posso contar meus males,
Nem a mim mesmo em segredo;
É tão cruel o meu fado,
Que até de mim tenho medo.

Dos homens sendo a paixão
Incêndio voraz no peito,
Sempre tem funesto efeito,
Se não rebenta o vulcão.
Eis porque, meu coração,
Pouco falta, que me estales;
Porque nos montes, nos vales,
Em deserto, ou povoado,
Não posso soltar um brado,
Não posso contar meus males.

(...)

O peito d’antes sereno
Centro de amor e ternura,
Agora é morada escura
De males mil, com que peno.
Vós p’ra quem um fado ameno
Aponta com áureo dedo,
Fugi de mim porque cedo
Mudar-se vereis a sorte;
Pois o meu mal é tão forte,
Que até de mim tenho medo.

Inteira e com a grafia antiga aqui

Aí, observo de quem era e me surpreeendo, era do Frei Caneca. Ele foi um do líderes da Confederação do Equador, movimento separatista pernambucano em 1824. Eu sabia que ele era intelectual, professor, e um dos redatores do jornal revolucionário . Mas na minha vasta ignorância, não sabia que ele tinha registrado boas poesias. Libertário, forte, a poesia parece refletir um pouco o espírito do revolucionário.

Um Frei que escreve sobre uma paixão forte (dizem que os primeiros 4 versos foi para uma mulher, de amor impossível) e que reconhece o próprio mal nos últimos versos?
Me tornei mais fã dele ainda!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Versos de Quarta - John Suckling

A frequência pode não ser constante como fora no começo do ano, mas quarta é o dia que as poesias aparecem aqui no blog (exceto os haikais dos sábados, obviamente).

Hoje vamos de John Suckling. Um poeta líder dos Cavaliers Poets. Grupo de poetas que apoiavam a monarquia inglesa nos Idos do século XVII. Não ache que por isso, eles eram nobres chatos que exaltavam as causas pessoais. Cavaliers em inglês também tem um significado de fanfarrão e foi esta vertente que se sobressaiu no grupo.

Essa característica fica claro no verso que eu trago. Ao aconselhar ao Young Sinner no texto, vai incentivando até uma fronteira, talvez da dignidade. Depois disso, termina com um carinhoso "Que o diabo a carregue"



Why so pale and wan, fond lover?
Prithee, why so pale?
Will, when looking well can’t move her,
Looking ill prevail?
Prithee, why so pale?

Why so dull and mute, young sinner?
Prithee, why so mute?
Will, when speaking well can’t win her
Saying nothing do’t?
Prithee, why so mute?

Quit, quit for shame! This will not move;
This cannot take her.
If of herself she will not love,
Nothing can make her:
The devil take her.

*************
Minha porca tradução abaixo é só pra ajudar na compreensão do sentido, nem procurei alinhar as rimas e as aliterações da poesia original por pura incapacidade mesmo. Se você entendeu acima, nem precisa ler embaixo.

Por que tão pálido e triste, tolo apaixonado
Por Deus, Por que tão pálido?
Se, quando estás bem não mexes com ela
Aparentar doente prevalecerá?
Por Deus, Por que tão pálido?

Por que tão desanimado e mudo, jovem pecador
Por Deus, Por que tão lânguido?
Se, quando você fala bem, não a conquita
Não falar vai ajudar?
Por Deus, Por que tão desanimado?

Deixe, deixe, deixe por vergonha! Isso não mudará
Isso não a conquista
Se dela mesma, nunca amar a ti
Não podes faze-lo
O Diabo que a carregue

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Quintanando

Bem, terminei a minha brincadeira com o Quintana que havia citado em postagens anteriores.
Junto alguns poemas do Quintana à fotos que tirei nas minhas andanças por Porto Alegre.

Pena que eu só tive a ideia depois de ter voltado pra minha capital. Ainda sim, foi uma busca divertida. Li pelo menos 4 livro de Quintana umas três vezes. Vi e revi Porto Alegre sob minha ótica e hoje sinto que tenho uma ligação um pouco mais forte com a capital gaúcha (além das pessoas que tenho por lá) graças aos quintanares.

Os links para quem quiser ver
no Flickr (vou passar alguns dos meus álbums lá pra essa plataforma também)

e uns três aqui pra dar uma ideia de como ficou:





Poeminho do contra

Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!




Fim do mundo
Um homem sozinho numa gare deserta
À espera de um trem que nunca vem.
Por fim, vai informar-se no guichê da estação.
Não encontra ninguém...





Vida

Não sei
O que querem de mim estas árvores
Essas velhas esquinas
Para ficarem tão minhas só de as olhar por um momento

Ah! Se exigirem documentos aí do Outro Lado
Extintas as outras memórias
Só poderei mostrar-lhes as folhas soltas de um álbum
[de imagens
Aqui uma pedra lisa, ali um cavalo parado
Ou
Uma
Nuvem perdida,
Perdida...

Meu Deus, que modo estranho de contar a vida.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Versos de quarta - Mario quintana

Confissão

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece…
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!


Os poetas tem a capacidade de transformar em palavras alguns sentimentos que achamos indizíveis. Me sinto parcialmente trasncrito aí.
Da minha última viagem que eu fiz foi a Portalégri, sua cidade de coração. Arranjei uns livros dele que não tinha e tentei captar um pouco a cidade com os olhos do velho poeta. O resultado eu espero registrar aqui no blog em breve.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Versos de quarta

Quando digo que vou ir a Porto Alegre

Percebo que estou equivocado

Não pela redundância do verbo

[do gramático chato

Mas pela heresia de usar um termo

Que não é da minha gente

Como um gaúcho, falando oxente

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Versos de quarta - Charles Bukowski

O livro de Bukowski que eu comprei tem uma caracterítsica que foi decisiva na escolha. Tem os poemas orginais, em inglês, seguidos da versão traduzida. Pra mim que não sou fluente na língua, mas tenho uma compreensão boa, caiu muito bem.
É divertido ler poemas em outras línguas. Ainda mais de uma estrutura bem diferente a uma língua latina como a nossa. Eu não tenho noção dos lugares comuns, tudo é meio novo e ainda mais interessante.
Só queria registrar uma última coisa. O meu poema preferido este livro, na realidade é este daqui. Porém, por já ter postado, tive que escolher outro.

Tá bom de conversa mole

3:30 A.M. Conversation

at 3:30 a.m. in the morning
a door opens
and feet come down the hall
moving a body,
and there is a knock
and you put down your beer
and answer.
god damn it, she says,
dont' you ever sleep?
and she walks in
her hair in curlers
and herself in a silk robe
covered with rabbits and birds
and she has brought her own bottle
to which you splendidly add
2 glasses;
her husband, she says, is in Florida
and the sister sends her money and dresses and she has been looking for a job
for 32 days.
you tell her
you are a jockey's agent and a
writer of jazz and love songs,
and after a couple of drinks
she doesn't bother to cover
her legs
with the edge of the robe
that keeps falling away.
they are not bad legs at all,
in fact, very good legs,
and soon your are kissing a
head full of curlers.
and the rabbits are beginning
to wink, and Florida is a long way
away, and she says we are not strangers
really because shes has seem me
in the hall.
and finally
there is very little
to say.


E sua tradução (feita por Jorge Wanderley)


Conversa às Três e Meia da Madrugada
às três e meia da madrugada
a porta se abre
e há passos na entrada
que trazem um corpo,
e uma batida
e você repousa a cerveja
e vai ver quem é.

com os diabos, ela diz,
você não dorme nunca?
e ela entra
com o cabelo nos rolinhos
e num robe de seda
estampado de coelho e passarinho
e ela trouxe a sua própria garrafa
à qual você gloriosamente acrescenta
2 copos;
o marido, ela diz, está na Flórida
e a irmã manda dinheiro e vestidos para ela,
e ela tem estado procurando emprego
nos últimos 32 dias.
você diz a ela
que é um cambista de jóquei e
um compositor de jazz e canções românticas,
e depois de uns dois copos
ela não se preocupa com cobrir
as pernas
com a beira do robe
que está sempre caindo.
não são pernas nada feias,
na verdade são pernas ótimas,
e logo você está beijando uma
cabeça cheia de rolinhos,
e os coelhos estão começando a
piscar, e a Flórida é longe, e ela diz
que não somos realmente estranhos
porque ela tem me visto na entrada.
e finalmente
há muito pouca coisa
para dizer.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Versos de quarta - Carlos Pena Filho

Hoje é dia de ficar com um poema bem Sutil do poeta pernambucano.

A solidão e sua porta

Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar
(nem o topor do sono que se espalha)

Quando, pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório
lembra-te uqe afinal te resta a vida

com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Versos de quarta - Ferreira Gullar

Ferreira Gullar, o homem do poema sujo, daqueles que rompem com as formas pré-estabelecidas da poesia, está entre os meus favoritos. Acho que o poema abaixo nem representa muito a obra dele, mas eu acho bem bacana

Nasce o poeta
6

A manhã apaga
as perguntas da noite

as coisas são claras
as coisas são sólidas

o mundo se explica
só por existir

a memória dorme

o presente ri


Bem, este é deveria ser o último da série, mas acabou vindo mais por aí.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Versos de quarta - Ascenso Ferreira

Ainda sobre o que eu comentei das sinópses de dança na postagem anterior, uma amiga minha mandou um vídeo pra eu ver, este aqui. Nele um pianista-solo e um bailarino local comentam sobre o espetáculo dos dois, chamado neo-nômade.
O pianista então começa a divagar sobre o tema, comentando sobre o "novo nomadismo" e citando como culpados o neoliberalismo (hã?!), o capitalismo e outros vilões contemporâneos.

Mas bem, é um espetáculo de dança e de piano. Será que por si só conseguiria resgatar algo assim?

Então me veio em mente o grande Ascenso Ferreira. Também está retratado no circuito dos poetas. Ele tinha um espírito bem interessante, pelos relatos era um cara de espírito anárquico e caricato. Enfim, sem maiores delongas, um dia ele escreveu:

Hora de comer — comer!
Hora de dormir — dormir!
Hora de vadiar — vadiar!
Hora de trabalhar?

— Pernas pro ar que ninguém é de ferro!


Teorias da revolução, discussões filosóficas sobre a vida e os rumos da humanidade são relevantes, mas cada coisa na sua hora.

Exceto trabahar :D

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Versos de quarta - Mário Quintana

Esse já é um velho conhecido deste blog, não poderia faltar

O auto-retrato

No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem
às vezes me pinto árvore

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão

e, desta lida, em que busco
-pouco a pouco -
minha eterna semelhança,

No final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Versos de Quarta - Millôr Fernades

Procurei uma que não representasse o estilo dele:

(à maneira de Bashô)
Nem grilo, grito ou galope
No silêncio imenso
Uma rã mergulha - Plóóp!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Versos de quarta - Alice Ruiz

Hoje o dia é de Alice Ruiz, vencedora do prêmio Jabuti de poesia em 2009.
São dois hai-kais

Primeiro vagalume
Assim começa
o fim do ano

Dia que termina
Nenhuma pressa
Ano que começa

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Versos de quarta* - Carlos Pena Filho

* Se tudo caminhar bem, até o fim de janeiro, vão aparecer uns versos, hai-kais e coisas do gênero por aqui todas as quartas


Um dos meus hobbies é o tal do pôquer. Vira e mexe eu jogo uma partidinha online e num dia iluminado eu consegui ganhar uns trocadinhos reais. Com o trocado que ganhei, minha primeira idéia foi comprar alguma coisa, além de pagar uma pizza pros amigos. O "alguma coisa" serviria como um troféu, algo físico, concreto. Decidi queseria um livro do Leminski. Apesar de citá-lo constantemente, não tenho nada do cidadão
Pois bem, fui à livraria e não tinha nada dele. Quintana? Tinha, mas não o que queria. Iria então apelar para uma novidade, que acabou sendo Carlos Pena Filho. Para quem não o conhece, ele foi um dos poetas pernambucanos mais importantes depois da geração de 45 (pulemos o Hour Concour João Cabral).
Quando eu rodei o Recife fotografando o circuito dos poetas (se alguém não viu, espia aqui) fiz uma breve pesquisa sobre o que escreveu cada um e neste momento Carlos Pena Filho já me saltava aos olhos. Observe que a estátua dele é tipo numa mesa de bar e sempre senta alguém pra conversar com ele.
Bem, eu juro que cheguei até aqui pensando em escrever um outro verso , mas como eu vi que um dos meus preferidos dele, o que está na foto, não foi registrado aqui ainda, vai ser o verso que inaugurará esta sessão.

Só fazendo uma breve contextualização para entender as entrelinhas:
O bar Savoy foi um bar histórico no centro da cidade do Recife. Era o nosso antro de intelectuais e poetas, de cuja efeversência se criaram muitos versos e prosas. Figurinhas como Sartre, Simone de Beauvoir, Camus, Ariano Suassuna, (e uma lista maior que eu me esqueci) já frequentaram o lugar. É um lugar que tinha história pra contar.
Pena Filho então escreveu o famoso refrão do bar Savoy.

Chopp

Na avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antonio,
tanto se foi transformando
que, agora, às cinco da tarde,
mais se assemelha a um festim,
nas mesas do Bar Savoy,
o refrão tem sido assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.
Ah, mas se a gente pudesse
fazer o que tem vontade:
espiar o banho de uma,
a outra amar pela metade
e daquela que é mais linda
quebrar a rija vaidade.
Mas como a gente não pode
fazer o que tem vontade,
o jeito é mudar a vida
num diabólico festim.
Por isso no Bar Savoy,
o refrão é sempre assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.

Carlos pena Filho morreu com apenas 31 anos em um acidente de carro. Após a sua morte, Mauro Mota, outro poeta pernambucano, escreveu

São agora vinte e nove
Os homens do Bar Savoy.
Vinte e nove que se contam.
Falta um. Para onde foi?

Vinte e nove homens tristes.
Dentro deles, como dói
a ausência do poeta Carlos
na mesa do Bar Savoy.